{"id":554,"date":"2025-10-02T11:00:00","date_gmt":"2025-10-02T11:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/tuliobozola.com.br\/index.php\/2025\/10\/02\/por-que-ha-tantos-habeas-corpus-no-stf\/"},"modified":"2025-10-02T11:00:00","modified_gmt":"2025-10-02T11:00:00","slug":"por-que-ha-tantos-habeas-corpus-no-stf","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tuliobozola.com.br\/index.php\/2025\/10\/02\/por-que-ha-tantos-habeas-corpus-no-stf\/","title":{"rendered":"Por que h\u00e1 tantos Habeas Corpus no STF?"},"content":{"rendered":"<p><\/p>\n<div>\n<p>O ministro Fl\u00e1vio Dino disse h\u00e1 poucos dias que o STF ter\u00e1 que restringir o manejo de Habeas Corpus pelas partes. Exemplificou a quest\u00e3o pontuando que o tr\u00e1fico privilegiado, que \u00e9 um dos temas mais comuns em concess\u00f5es de Habeas Corpus no STF, \u00e9 <em>\u201cmat\u00e9ria de fatos e provas\u201d<\/em>.<\/p>\n<p><em>\u201cSer\u00e1 que n\u00f3s vamos ficar examinando milhares e milhares de Habeas Corpus para deles n\u00e3o conhecer? Dizendo que, por exemplo, tr\u00e1fico privilegiado \u00e9 mat\u00e9ria de fatos e provas e que n\u00e3o seremos n\u00f3s que vamos infirmar a conclus\u00e3o das inst\u00e2ncias ordin\u00e1rias? De que serve isso? Para que serve isso?\u201d<\/em>, questionou.<\/p>\n<p>Algumas quest\u00f5es exsurgem da declara\u00e7\u00e3o do ministro. Primeiro, se h\u00e1 pedidos de Habeas Corpus no STF (e no STJ) <strong>\u00e9 porque algo n\u00e3o funcionou nas duas inst\u00e2ncias do sistema<\/strong>. N\u00e3o adianta reclamar das \u00e1guas do rio se as margens \u00e9 que o oprimem. Quem examinar minimamente o cotidiano das pr\u00e1ticas jur\u00eddicas ver\u00e1 o qu\u00e3o dura \u00e9 a realidade no ch\u00e3o da f\u00e1brica. Gente presa por qualquer coisa. <strong>N\u00e3o h\u00e1 uma conscientiza\u00e7\u00e3o no primeiro grau para o n\u00e3o recebimento de acusa\u00e7\u00f5es sem justa causa. N\u00e3o h\u00e1 um rigor com as provas il\u00edcitas e com as nulidades processuais.<\/strong> N\u00e3o h\u00e1 obedi\u00eancia dos precedentes do STF e STJ (lembremos das queixas do ministro Salom\u00e3o e agora do ministro Dino). \u00c9 f\u00e1cil determinar pris\u00f5es por meio de tempor\u00e1ria ou preventiva. Ou negar recorrer em liberdade. Mormente se o r\u00e9u \u00e9 pobre. Ainda n\u00e3o conseguimos superar De La Torre Rangel, que dizia:<em> La ley es como la serpiente; solo pica al descalzos<\/em>.<\/p>\n<p>Se o STF tem de examinar Habeas de furto de past\u00e9is ou caramelos, \u00e9 porque algu\u00e9m prendeu mal ou condenou erradamente. E o fiscal da lei deveria ter cuidado disso com mais precau\u00e7\u00e3o. Os exemplos s\u00e3o incont\u00e1veis. H\u00e1 at\u00e9 furto de baldes de \u00e1gua que foi parar no STF. Conto o caso: em novembro de 2021, a <strong>ConJur<\/strong> noticiou Habeas Corpus deferido pelo ministro Alexandre de Moraes liberando uma mulher do estado de Minas presa h\u00e1 quatro meses por ter furtado \u00e1gua. Emblem\u00e1ticos. Assim:<\/p>\n<p>1) Um juiz mineiro decretou a preventiva,<\/p>\n<p>2) o Tribunal de Minas considerou a pris\u00e3o regular,<\/p>\n<p>3) o Superior Tribunal de Justi\u00e7a negou o HC por ela ser, al\u00e9m de tudo, perigosa e, finalmente,<\/p>\n<p>4) o STF teve que entrar em campo para dizer o \u00f3bvio: prender algu\u00e9m por esse tipo de crime deixaria Sir Coke de cabelos em p\u00e9 (falo em Coke porque foi citado no belo voto do ministro Alexandre de Moraes).<\/p>\n<p>Bem recentemente h\u00e1 um caso que ilustra melhor ainda o que estou dizendo:<\/p>\n<p>1) sujeito foi condenado \u00e0 pena de regime semiaberto, com pris\u00e3o preventiva decretada, portanto, sem direito a recorrer em liberdade (afinal, para essa pena nem cabe preventiva, <strong>segundo o STF<\/strong>);<\/p>\n<p>2) TJ-SP negou Habeas Corpus;<\/p>\n<p>3) STJ negou Habeas Corpus:<\/p>\n<p>4) o ministro Andr\u00e9 Mendon\u00e7a n\u00e3o conheceu do HC, <a href=\"https:\/\/www.conjur.com.br\/2025-set-30\/prisao-preventiva-e-incompativel-com-condenacao-a-pena-em-semiaberto-diz-mendonca\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">mas concedeu ordem de of\u00edcio<\/a> (uma jabuticaba , mas, enfim, muito \u00fatil). O ministro disse que o Supremo j\u00e1 reconheceu a incompatibilidade da imposi\u00e7\u00e3o ou manuten\u00e7\u00e3o da pris\u00e3o preventiva se o r\u00e9u for condenado a uma pena diferente do regime fechado.<\/p>\n<p>Spacca<\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-646987 alignright\" src=\"https:\/\/www.conjur.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/26\/caricatura-lenio-luiz-streck.png\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"300\" data-credit=\"Spacca\" data-guid=\"caricatura-lenio-luiz-streck.png\" srcset=\"https:\/\/www.conjur.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/26\/caricatura-lenio-luiz-streck.png 200w, https:\/\/www.conjur.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/26\/caricatura-lenio-luiz-streck-150x225.png 150w\" sizes=\"(max-width: 200px) 100vw, 200px\"\/><\/p>\n<p>5) portanto, se havia precedente (aten\u00e7\u00e3o, aqui de novo, o que \u00e9 isto \u2013 um precedente?), por qual raz\u00e3o n\u00e3o \u00e9 aplicado?<\/p>\n<p>6) sob o imp\u00e9rio do precedentalismo, cabe perguntar: se o objetivo dos tribunais superiores \u00e9 fixar teses que se prestam <strong>a coisas futuras<\/strong>, qual \u00e9 a raz\u00e3o de essas coisas futuras se repetirem \u00e0 exaust\u00e3o no \u201csistema\u201d?<\/p>\n<p>Eis as margens do rio (sistema) que comprimem o curso da \u00e1gua (STF e, tamb\u00e9m, STJ).<\/p>\n<p>Mas, vejamos tamb\u00e9m a viol\u00eancia das \u00e1guas.<\/p>\n<p>Com efeito, h\u00e1 uma profunda quest\u00e3o estrutural no sistema de administra\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a. Como segundo ponto lembro que n\u00e3o basta, em breve, o STF decidir em um determinado caso que, a partir de ent\u00e3o, n\u00e3o mais aceitar\u00e1 determinados pedidos de HC (n\u00e3o sei como faria isso, de todo modo). Lembremos do passado (2016): por meio do HC 126.292, de Itapecerica da Serra, o STF fez uma virada na presun\u00e7\u00e3o da inoc\u00eancia, da noite para o dia. E isso durou at\u00e9 2019.<\/p>\n<p>Receio que o STF fa\u00e7a algo desse tipo, ao ler nas entrelinhas a fala do ministro Dino. E disso surge um terceiro ponto: os tribunais superiores n\u00e3o t\u00eam o poder de alterar a legisla\u00e7\u00e3o por meio de julgamentos dos quais extraem-editam uma tese, depois chamada de precedente. Teses n\u00e3o s\u00e3o precedentes (ver <a href=\"https:\/\/www.conjur.com.br\/2025-jun-12\/por-que-teses-e-temas-editados-pelos-tribunais-superiores-nao-sao-precedentes\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>, <a href=\"https:\/\/www.conjur.com.br\/2024-jun-13\/por-que-os-precedentes-nao-sao-obedecidos\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>,<a href=\"https:\/\/www.conjur.com.br\/2025-abr-03\/para-o-tst-nao-basta-ter-a-ultima-palavra-e-preciso-ter-a-primeira\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"> aqui<\/a> e <a href=\"https:\/\/www.editorajuspodivm.com.br\/precedentes-judiciais-e-hermeneutica-2025-6ed?srsltid=AfmBOopbA_kHiqAseYVYcIYGBnINgqz4ESHzKvVMhAHkoZ94rkxVdRKN\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>).<\/p>\n<p>Portanto, a restri\u00e7\u00e3o ao direito do Habeas Corpus n\u00e3o pode ser feita sem a interven\u00e7\u00e3o do legislador, locus da discuss\u00e3o genu\u00edno (embora o parlamento \u201cn\u00e3o se ajude muito\u201d nos \u00faltimos tempos). A comunidade jur\u00eddica n\u00e3o pode simplesmente analisar o problema apenas na ponta de cima. Urge que discutamos os dois andares da jurisdi\u00e7\u00e3o. A forte jurisprud\u00eancia defensiva acaba tamb\u00e9m gerando mais pedidos de Habeas Corpus. De fato, o sistema est\u00e1 em um impasse:<\/p>\n<p>1) existe uma jurisprud\u00eancia defensiva pelo qual a vagueza da S\u00famula 7 (STJ) e 279 (STF) permite uma esp\u00e9cie de katchanga real, servindo para admitir ou inadmitir recursos;<\/p>\n<p>2) quando h\u00e1 a inadmiss\u00e3o no tribunal de REsp ou RE, vem a S\u00famula 182 para ceifar liberdades (lembremos que a S\u00famula 182 \u00e9 fruto de julgamento de c\u00e9dula rural);<\/p>\n<p>3) a S\u00famula 691 \u00e9 outro obst\u00e1culo \u2013 hoje ilegal, mas que continua sendo usada (<a href=\"https:\/\/www.conjur.com.br\/2025-set-01\/liminar-em-habeas-corpus-a-lei-13-869-2019-e-a-sumula-691-do-stf\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">ler aqui artigo meu com Bheron<\/a>);<\/p>\n<p>4) outro fator \u00e9 o n\u00famero de RHCs, decorrentes de indeferimentos dos tribunais de segunda inst\u00e2ncia e tamb\u00e9m do STJ;<\/p>\n<p>5) E o Tema 339\/STF \u2013 que, em linhas gerais, permite ao julgador a exposi\u00e7\u00e3o sucinta das raz\u00f5es decis\u00f3rias \u2013 que simplesmente <strong>obsta todo e qualquer recurso extraordin\u00e1rio que tenha por objetivo levantar discuss\u00e3o sobre viola\u00e7\u00e3o ao artigo 93, inciso IX, da Constitui\u00e7\u00e3o<\/strong> (a\u00ed \u00e9 f\u00e1cil, certo?). Perceba que este enunciado talvez seja o maior obst\u00e1culo dentre todos aqueles nominados. Isso porque, al\u00e9m de, no mais das vezes, ser decidido no pr\u00f3prio tribunal de origem (nem subindo o recurso extraordin\u00e1rio ao seu destinat\u00e1rio final \u2013 o STF), trata da <strong>cl\u00e1usula de <em>accountability <\/em>do Poder Judici\u00e1rio e da democracia<\/strong>. A forma como se nota, na <em>pr\u00e1xis<\/em>, a utiliza\u00e7\u00e3o de tal tema praticamente estiola qualquer possibilidade de se levar ao conhecimento do Supremo quest\u00f5es atinentes \u00e0 viola\u00e7\u00e3o do dever de fundamenta\u00e7\u00e3o;<\/p>\n<p>6) H\u00e1 um ac\u00famulo de processos e um aumento da demanda, mas n\u00e3o h\u00e1 o aumento estrutural do n\u00famero de ministros e servidores \u2013 preferindo o sistema apostar em intelig\u00eancia artificial, tornando o direito das partes dependente de m\u00e1quinas.<\/p>\n<p>Dentre estes elencados acima, tantos outros poderiam ser citados para demonstrar que a exist\u00eancia do Habeas Corpus \u2013 e a sua ampla veicula\u00e7\u00e3o perante os tribunais superiores \u2013 <strong>em verdade soa como um importante instrumento para superar as barreiras intranspon\u00edveis da jurisprud\u00eancia,<\/strong> que, em nome de uma pretensa efici\u00eancia, suprime cada vez mais os direitos fundamentais dos cidad\u00e3os.<\/p>\n<p>H\u00e1 um prov\u00e9rbio latino \u2014 <em>Ne nuntium necare<\/em> (\u201cn\u00e3o mate o mensageiro\u201d) \u2014 usado para ilustrar a atitude comum de reis e autoridades da Antiguidade que, ao receberem m\u00e1s not\u00edcias, em vez de enfrentarem a realidade ou lidarem com ela, ordenavam a execu\u00e7\u00e3o do mensageiro. Restringir ainda mais o manejo de habeas corpus pelas partes \u00e9 fechar os olhos para os sintomas do sistema de administra\u00e7\u00e3o de justi\u00e7a criminal brasileiro. \u00c9 matar o mensageiro.<\/p>\n<p>Voltando \u00e0 met\u00e1fora do rio e das margens que o oprimem, v\u00ea-se que n\u00e3o s\u00e3o apenas as margens as respons\u00e1veis pela viol\u00eancia das \u00e1guas; o pr\u00f3prio rio tem o seu grau de responsabilidade.<\/p>\n<p>Portanto, n\u00e3o nos tirem o \u00faltimo bast\u00e3o do direito, que, ali\u00e1s, foi o primeiro (tragam-me o corpo, por isso Habeas Corpus). <strong>Por isso o chamamos de Rem\u00e9dio Heroico.<\/strong> Deve haver um bom motivo, pois n\u00e3o?<\/p>\n<\/p><\/div>\n<p><script>\n\t\t\t!function(f,b,e,v,n,t,s)\n\t\t\t{if(f.fbq)return;n=f.fbq=function(){n.callMethod?\n\t\t\tn.callMethod.apply(n,arguments):n.queue.push(arguments)};\n\t\t\tif(!f._fbq)f._fbq=n;n.push=n;n.loaded=!0;n.version='2.0';\n\t\t\tn.queue=[];t=b.createElement(e);t.async=!0;\n\t\t\tt.src=v;s=b.getElementsByTagName(e)[0];\n\t\t\ts.parentNode.insertBefore(t,s)}(window,document,'script',\n\t\t\t'https:\/\/connect.facebook.net\/en_US\/fbevents.js');\n\t\t\tfbq('init', '161549567747486'); \n\t\t\tfbq('track', 'PageView');\n\t\t<\/script><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O ministro Fl\u00e1vio Dino disse h\u00e1 poucos dias que o STF ter\u00e1 que restringir o manejo de Habeas Corpus pelas partes. 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